Cuidar de criança pequena não combina com erotismo

Atualizado: 29 de Nov de 2019

Sobre a amarga transição de 2 para 3...


"Eu não tinha mais tesão"

Em recente entrevista, Sabrina Sato (mãe da Zoe, de 11 meses), afirmou não sentir mais vontade de transar com o noivo após o nascimento da filha. A repercussão foi enorme e, em sua maioria apoiada por mulheres, inclusive famosas e recém-mães, como Tatá Werneck (mãe da Clara Maria, de 1 mês) e Camilla Camargo (mãe do Joaquim, de 3 meses) – link no final do post.


Não vejo esta situação – que muitas vezes, estende-se por anos – como “anormal”. Antes de ser terapeuta sexual, sou mãe, e sei exatamente como é.



O problema está quando isto gera um conflito e uma situação que seria de união – ter um filho – começa a gerar o afastamento do casal.

Ter filho é uma benção, um deleite, um milagre. Ver aqueles olhões lindos nos fitando como se fôssemos únicos no mundo eterniza na gente um sentimento de paz e uma felicidade sem fim. Filhos são apaixonantes.


Mas ter filho é uma revolução psicológica. Como um cataclisma em miniatura, muda nossa forma de nos relacionar conosco, com os amigos, com os parentes, com o dinheiro, com as incertezas e com nosso parceiro. A transição de 2 para 3 é uma das mais amargas que um casal enfrentará e demora anos (não meses e nem mesmo semanas) para que o homem e a mulher, então promovidos a pai e mãe, possam encontrar a posição de cada um neste admirável mundo novo.


O que será que acontece com a mulher neste período?


Segurança e estabilidade ganham um sentido novo quando filhos entram em cena. Todo livro sobre bebês nos trará informações sobre a importância de uma base sólida, da rotina, previsibilidade e regularidade para que, ao sentirem-se confiantes, eles possam explorar o mundo por conta própria. Os pais, precisam ser constantes, confiáveis e responsáveis para poderem oferecer esta segurança aos filhos. A ironia aqui, está no fato de que ninguém consegue ser confiante, seguro e estável numa situação de caos onde não temos a menor ideia de como devemos agir. Desde coisas “simples e corriqueiras” como amamentar, entender qual o motivo do choro, descobrir qual a posição preferida para o bebê dormir, a decisões mais impactantes como voltar ou não a trabalhar, deixar com a vó, com babá ou colocar na creche, nos dão a constante sensação de ansiedade e reforçam uma sensação de instabilidade.


Neste cenário, a mulher, agora mãe, passa a ter a sensação de triagem permanente: o que é mais importante para eu fazer neste exato momento? E na procura de conter o imprevisível, não é difícil descobrir-se estruturando, organizando, estabelecendo prioridades. Na hierarquia dessas novas exigências, o sexo passa a ocupar o último lugar e nunca cede essa posição para coisas corriqueiras como lavar a louça ou conferir se há fraldas suficientes para a semana.


Muitas vezes, a mulher percebe a aproximação íntima do parceiro como a de mais alguém que quer mais alguma coisa e ela, exausta, já não tem nada para dar.


O que fica difícil perceber é que o sexo não é só para ele, é prazer para ela também. Ela está tão organizada mentalmente naquilo que tem que fazer pelas pessoas que perde a capacidade de reconhecer quando algo lhe é oferecido.

Na atmosfera caótica de tentar criar um ambiente de conforto e consistência, a mulher tem dificuldade desligar o modo “tomar conta”. Isso se reflete na qualidade da relação sexual que necessita deixar os sentidos tomarem conta do corpo e que se perda no prazer.


O que pode acontecer com os homens?


Geralmente, parceiros cronicamente desapontados pela ausência de intimidade sexual criam um deserto emocional. Há quase que um padrão: ele toma a iniciativa, ela o repele, ele se sente rejeitado e se retira, ela se sente sozinha porque ele não compreende o momento em que está passando. Nesse cenário, ele passa a monitorar o desejo da parceira e quantificar as aproximações, esquecendo-se que não é dá para forçar o desejo.

O que fazer, então?


Primeiro, ambos devem respirar fundo e lembrar do porquê estão juntos. Sugiro até que voltem um pouco mais na história pessoal de cada um e lembrem-se do quanto é maravilhosa a sensação de descobrir que é amado pela pessoa que ama; como no começo de namoro, depois de decepções e de histórias que não deram certo, finalmente, um disse “sim” para o outro e é esse sentimento de felicidade pela aceitação é que deve ser resgatado.


Os parceiros devem entender que, ao invés de monitorar o desejo, eles devem cultivar o desejo nas parceiras. Não se pode forçar o desejo, como disse, mas se pode criar uma atmosfera propícia.

As mulheres tendem a ter uma sexualidade passiva, até por causa de questões culturais, e muitas vezes, isso também pode implicar que amor e tesão são inseparáveis. Cabe ao parceiro, assim como fez lá no começo da relação, cultivar a intimidade para que a mulher não se sinta como um objeto. (Isso não quer dizer que para os homens são coisas absolutamente diferentes, trata-se de linguagens diferentes – assunto para outro post.)


A melhor dica prática que posso dar a você, caso esteja enfrentando esta situação e deseje mudar, resgatando o erotismo e a intimidade do casal, é demarcar um território que só o casal tenha acesso. Pode ser um almoço no meio da semana, uma noite por mês ou meia hora a mais no carro... não sei. Mas, aos poucos esta demarcação deve ser introduzida na vida da família.


Você pode dizer: “Ah! Sexo premeditado... que graça tem?


Concordo, planejar pode até dar um ar de banalidade para o sexo. Mas, planejar vai exigir intencionalidade e intencionalidade dá ideia de valor. Quando um casal faz planos para transar, estão reafirmando seu vínculo erótico. E não era exatamente isso que faziam quando namoravam? Quantos planejamentos não foram realizado para que se transasse no sábado à noite?


Outro ponto positivo dessa iniciativa é que a mulher tem tempo para tirar a fantasia de mãe e vestir a de amante. Se preparar para sair, para um encontro, implica escolher roupa, tomar um banho caprichado, se depilar, maquiar... este ritual faz aflorar a sensualidade e reintroduz o erotismo na paisagem psíquica, criando uma abertura para a aceitação da intimidade.


Acima de tudo, vale lembrar que, esta é só uma fase de um relacionamento duradouro e que vai passar, por isso, ambos devem ser tolerantes. Mas também #ficaadica de que


Não são os filhos que apagam a chama do desejo – são os adultos que não conseguem mantê-la viva.

https://www.purepeople.com.br/noticia/tata-werneck-apoia-declaracao-de-sabrina-sato-sobre-sexo-e-maternidade-saiba_a281371/1



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©2019 por Sexualidado do Casal | Psicoterapeuta Bruna Soarez | Brasil